Jardins do Tempo
Verso intraquilo, que vem calar toda a noite. Que me desperta em assombro, com o sobre-humano desperto que há em tudo. A loucura é uma Rosa oculta no universo, de beleza que não se vê, de matéria que não se sente... Intelectos em transe racional, muito belos, por vezes ocupam-se ao mentir, como inventores fantásticos, fanáticos, quando a beleza real do fino tecido enérgico da verdade não é sensível aos corações e às retinas cansadas. A mentira atravessa eras como um ornado verso que mata a si próprio em supérfluo encanto estético. Ao pensar ser apenas suposição perante o Todo, há desses feitiços hipnotizantes aos espíritos demasiado racionalistas. Nascemos em empacotados moldes, atravessados pelo convencional não transgredido, por olhares cansados das infelicidades do silêncio cômodo. A humanidade adormeceu perplexa ao alvorecer. E ainda está na simplicidade da essência de uma palavra toda a força oculta da criação. E as palavras seguem, a nosso frágil domínio egóico, erguendo culturas vazias pelas planícies verdes do tempo. É um silêncio que repousa distante, no escárnio do presente, da natureza manifesta incapaz de ser compreendida e sentida, nem mesmo que sejam brutalmente mortos os seus filhos das matas, que a priori, todos nós somos; da mulher que deve calar, da escravidão adaptada e contemporânea, de todas as separações culturalmente impostas e alimentadas por um tal de silêncio. Nascimento, sofrimento e cativeiro. A vontade de Deus é um amor diferente. É uma cultura diferente. Verso intraquilo, parece vir dizer-me que as palavras nunca devem ser usadas para a morte, para o ferir. Que o silêncio também é ódio, é retrocesso. Que as ideias e desejos são também forças vivas que colorem o ar através de um silêncio que se deixe sussurrar pela alma.
Rosa conversa comigo, a vejo entre nebulosas, apenas uma voz em códigos sonoros, por vezes cânticos. Seu vestido ornado de olhos e luz. Dourada dama celeste, diz-me ser engraçada vossa fraqueza humana para com o dual, que se separam todos como crianças tolas e teimosas. Digo-te Rosa, que minha voz há de ser para sempre canal que atravessa o dualismo codificado em linguagem, que a tudo transcende. Como é conviver, coexistir inteiro com a multidão aflita de si? Entre estrelas, por dentro, um mar de essências verte, e não mais é sem sentido a simples analogia sensível de todas as coisas. Minha face é espelho manifesto ao discernir, sem exercício de exposição supérflua.
Deus queira, Oxalá, Rosa, que os dias sejam sempre assim com as palavras despertas. Quero sempre levar a leveza dos ventos, assim, transportar nas palavras a vivência sutil com o não dito, com o que ainda há de segredo em tudo o que sempre é dito. Rosa sorri, do infinito, e me aponta dizendo que o caminho da intuição têm dessas nuances.
Treva sobre treva, é a escuridão da ausência de profundezas ao viver. Todas as palavras são chamados sutis, tradutoras do incognocível existir que tenta, em exercício desinteressado de amor simplesmente girar a órbita de seus ciclos ocultos para estarem sempre em praias onde se afogam e se convertem em areia e sal.
Recordo-me, então, Rosa, de um coração que deixei chorar, de uma solidão que alimentei no tempo, e que o tempo me retornou apenas mais da mesma solidão. Dos dias tomados pelo ego, até aceitar de todo coração desistir de vencer. Ninguém assim me derrotará, pois desisti do interesse de ser apenas um vencedor. Sou poeta, assim como toda alma é. Cada palavra, cada suspiro, têm sua beleza trazidas em si mesmas por essência, haja um olhar empoderado de humildade para realmente sentir através da luz que o chegar à consciência. A loucura e a lucidez se fundem, no fundo do mar dos mundos. Meus passos são limites, contagens provisórias, caminhos simbólicos. O útero de minhas palavras é enérgica ponte, portal de essência, entidade que brota à sensitividade de meu ser. Pulsar que emerge, forma viva que expande: na madrugada, as flores que abrem à luz do luar. Alquimias diversas, ocultas, visíveis: encantos e perfumes. Raio solar, fogo celeste. Brotam todas, limitadas à mente, à língua, à percepção. Existem plenas, por detrás dessas sombras, maravilhosas almas vivas da existência profunda, onde todos os sopros são adeuses, todos os sorrisos já memórias feitas. Todos já refletem o tudo que desperta em verdade. Todos despertam para as águas. Todos vão banhar-se noutro tempo, nos sonhos plantados de versos intraquilos, ocultos nas terras, nas pedras, e nas flores dos jardins do tempo.
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